23 de novembro de 2016 Um Par Perfeito – Confira a crítica de Isabela Boscov do drama “Elle”

Com o rosto coberto por um capuz, o homem desfere socos contra Michèle, e rasga sua roupa. Ele a estupra, depois fecha o zíper e vai embora. Michèle põe ordem na casa e em si mesma, e, apesar de uma ou outra cena de pesadelo que vem à sua mente, recobra a frieza. No jantar, notifica os amigos do estupro e, diante da consternação deles, revira os olhos enfadada. Michèle dedica a si e aos outros o mesmo pragmatismo. É um trator no trabalho, tritura qualquer sensibilidade em seu caminho. É de fraqueza brutal com o filho, o ex-marido, o amante, a mãe idosa que paga por sexo com rapazes, mas sua inteligência e humor são um deleite. Michèle é incompreensível e infinitamente fascinante porque a atriz Isabelle Huppert renuncia a toda proteção e convenção para interpretá-la, e porque o diretor holandês Paul Verhoeven, em magnífica forma aos 78 anos, nunca reconheceu mesmo nenhuma fronteira. Pudor, bom gosto, circunspecção – Verhoeven, de estupendas afrontas cinematográficas como “Instinto Selvagem”, “Robocop” e “A Espiã”, não tem paciência com esses véus.

Na comédia de humor negro “Elle”, que entra em cartaz em dezembro, ele os arranca todos, e Isabelle vai atrás, tocando fogo nele. Michèle a certa altura descobre a identidade de seu estuprador. Sente-se curiosa, quase tocada, e entra com ele num jogo que envolve repetidas relações sexuais. Michèle cresceu marcada por um crime hediondo cometido por seu pai, do qual ela talvez tenha participado. O crime fez de Michèle o que ela é, ou foi a sobrevivência ao estigma que moldou seu caráter? Ela é avessa a dissimular ou tem necessidade de provocar reações de aversão e violência contra si? “Elle” tem o que poucos filmes têm hoje – profundezas insondáveis.

Fonte: Revista Veja

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